Arquivo de setembro de 2008

Diversidade cultural marca 6ª edição do Usina 21

Nenhum comentário » domingo, 14 de setembro de 2008

Miguel Antunes

“Todas as tribos por uma sociedade diferente”. Quem leu esses dizeres nos cartazes, logo abaixo do tema principal da 6ª edição do Usina 21 – Resgatando a Subversão Cristã –, não imaginava que o evento deste sábado, 13/9, pudesse reunir tamanha pluralidade de estilos e formas de expressão. O subtítulo foi levado ao pé da letra pela organização do evento: logo na abertura, no recém-reformado auditório Ruy Barbosa, na Universidade Mackenzie, os usineiros assistiram a apresentações que foram de música pop cristã a canções genuinamente brasileiras, passando por espetáculo de percussão corporal e pelo testemunho de uma missionária entre a população ribeirinha da bacia amazônica.

 O cantor Silvera, originário do quarteto black FLG, deu as boas-vindas aos participantes, e, sem perder o pique, abriu espaço a Roberto Diamanso, uma espécie de “cantador” de Jesus, com direito a viola nordestina, que trouxe um repertório pra lá de regional. Não sem antes dar lugar para que turma do JV na Estrada divertisse os usineiros, o vereador Carlos Bezerra Jr., principal idealizador do Usina, saudou os participantes e anunciou a preletora da edição.

 Márcia Suzuki, missionária que leva o Evangelho a tribos indígenas na Amazônia, trouxe reflexão acerca do papel do cristianismo na sociedade. Com discurso contundente, pontuado por relatos de suas experiências com os índios, a carioca que hoje passa mais tempo nas “malocas”, nome dados aos agrupamentos indígenas, do que em sua própria casa falou sobre a importância da prática de um Evangelho integral e genuíno. “A fé verdadeira, aquela que Deus espera de nós, é a que estende a mão ao órfão, aos excluídos, e não se conforma com o mundo”, afirmou Márcia. A missionária apresentou também um vídeo produzido para ilustrar o infanticídio, traço cultural das tribos da região que faz com matem as crianças indesejadas, e pediu orações por aquela população.

 Tudo isso era apenas o começo das variedades que o Usina deste ano ainda reservava. Às tradicionais vinte oficinas da manhã foram somadas mais dez palestras, aumentando ainda mais as opções dos usineiros, que já começavam a ficar indecisos diante das possibilidades. “Tem tanta coisa boa que a gente demora a decidir de qual participar”, assumiu Gabriele Cristina Lima, 19, estudante de Relações Públicas, freqüentadora do evento há quatro anos.

 “Teatro e expressão corporal”, com o ator Kaio Pezzutti; “Sexo e chocolate”; dos psicólogos Alex Rocha e Joyce Martins; “Mídia gospel e gospel na mídia”, apresentada pela jornalista Heleine Heringer; “Participação em causas sociais”, ministrada pela assistente social Silvia Kivitz e outras tantas foram oferecidas aos participantes do encontro.

 Logo após o almoço, os arredores do auditório Ruy Barbosa receberam manifestações artísticas de grafiteiros e músicos. Eles aproveitaram o espaço para mostrar seu trabalho aos usineiros, pouco antes das outras 30 oficinas da tarde, que trouxeram novos assuntos, variando de tribos urbanas e células-tronco a cinema e hip hop.

 Carlos Bezerra Jr. também deu palestra no período. Sob o tema “O chamado profético do jovem em favor dos que não tem favor”, o parlamentar falou sobre participação política de acordo com uma perspectiva cristã.

 Para encerrar a edição, os usineiros receberam calorosamente o Raiz Coral, banda que é uma das principais representantes da soul music evangélica do Brasil. Das 18h às 19h, o grupo não deixou ninguém ficar parado e promoveu uma verdadeira festa no final do Usina 21.

 Palestrantes e usineiros elogiam tema e evento

A 6ª edição do Usina 21 – Jovens, Idéias e Transformação Social foi bem avaliada pelos participantes e preletores. Levi Correa de Araújo, pastor e presidente estadual da Aliança Evangélica Brasileira (AEVB), que ministrou oficina sobre política social, chamou atenção para a importância da proposta do encontro. “O Usina é um oásis para o coração esperançoso da gente. E o tema desse ano é fantástico. Até porque, para mim, não é possível que haja qualquer tipo de mudança na sociedade, nas instituições, se não for pela subversão. Tem de ser underground mesmo, tem de ser uma revolução cidadã. Nós temos a obrigação de sinalizar o Reino de Deus, de apresentar essa subversão cristã”, ressaltou Levi. “Se não o único, é um dos poucos eventos da Igreja evangélica contemporânea que realmente tem sentido, tem significado e aponta para alguma coisa boa”, completou o pastor.

 “Esse é um lugar que abre espaço para a expressão de um cristianismo criativo, que traz a essa galera novidades muito saudáveis. E que também estimula o pensamento sobre coisas que vão além daquelas que a gente pode tratar na igreja”, elogiou Jota Mossad, palestrante do evento e um dos criadores do movimento SexxxChurch, que luta contra o tabu da sexualidade na Igreja.

 “Saímos daqui com uma postura nova, mais consciente. Prontos para mostrar por meio do nosso modo de vida uma alternativa para essa cidade”, destacou o usineiro de primeira viagem Fernando Bom Campo, 22, especialista em tecnologia da informação.

 A opinião de Fernando foi reforçada até por quem normalmente não faz parte do público do evento. Eliane Munhoz pode ser considerada a usineira mais “antiga” da edição. Ela tem 61 anos e disse ter hesitado em ir ao evento por causa da faixa etária dos participantes, predominantemente jovem. “Eu fiquei com um pouco de vergonha, mas decidi vir e estou adorando. Tive pique para assistir oficinas de manhã e à tarde e ficar até o fim do show do Raiz Coral”, comemorou, dando mais uma mostra da pluralidade do evento.

Ator de “Carandiru” e Antunes Filho conta sobre sua oficina no Usina

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Usina 21

Kaio converteu-se em 2001, é formado pela Escola de Artes Dramáticas da ECA – USP, já atou em longas como “Dois Córregos”, do diretor Carlos Reichenbach, e “Carandiru”, de Hector Babenco; é ator do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) de Antunes Filho – consagrado diretor de teatro –, e, há dois anos, é diretor artístico do Projeto Mateus, uma iniciativa da Igreja Batista Memorial para levar o Evangelho aos não-cristãos por meio musicais.
“As peças que apresentamos não são voltadas para evangélicos; alguns dos atores que participam conosco do projeto são contratados, atuam no meio secular, inclusive um deles converteu-se recentemente”, comenta o ator, ressaltando que, nos dias de apresentação dos espetáculos teatrais, não é permitida a entrada dos membros da igreja.
Além da importância da evangelização na Igreja e da utilização do teatro para a conversão de não-cristãos, Kaio também discorrerá sobre o perigo da auto-idolatria no âmbito artístico. Para ele, toda forma de arte leva à exaltação do artista, que pode transferir essa exaltação a Deus ou tomá-la para si mesmo.
Porém, no teatro, o enaltecimento recaí intensamente sobre o ator. “Em todas as maneiras de expressão artísticas há, pelo menos, dois elementos em foco: o músico e o instrumento, o pintor e a tela, o escritor e o papel etc. Nas artes cênicas, no entanto, há apenas um elemento, o homem.”
O perfil de usineiros que Kaio disse esperar em sua oficina é de “pessoas inquietas, que saibam dar testemunho de Cristo mesmo sob pressão”. Ele ainda ressalta que sua preleção não será direcionada exclusivamente para aqueles ligados a atividades artísticas.

Mídia e sexualidade

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Dr. Ageu Lisboa

PESSOA: indivíduo humano singular, único, irrepetível, imagem e semelhança divina, sujeito de direitos, portador de identidade inviolável.
Idealmente: nascido da junção amorosa-sexual de homem e mulher, símbolo da mais íntima comunicação inter-humana e partilhando um contrato de mutualidade.
Realisticamente: fruto de acasalamento macho-fêmea, conhecidos ou não, sob algum tipo de acordo mútuo ou não.
Idealmente: socializado desde o nascimento pela família, lugar dos primeiros estímulos da cultura de um grupo social. Ser humano é ser-com-os-outros-no-mundo.
Realisticamente: nem sempre criado por pais naturais ou adotivos conjuntamente, muitas vezes cresce sob precárias ambientes humanos e físicos.
MÍDIA: de médium, media – meios de comunicação inter-humana e /ou social.
Faz uso da materialidade de objetos, máquinas e qualquer dispositivo para veicular mensagens, entendidas como bens culturais e simbólicos: informações, imagens, idéias,
através de estímulos visuais, auditivos, táteis, sensoriais, que cheguem a pessoas, grupos, comunidades, cidades, paises e todo o mundo, captadas de modo consciente e/ou inconsciente. Inscrita no cérebro – engramas – inscrição psíquica, carne e sangue, passa a integrar seu repertório comportamental.
Em nossa atualidade, mídia se refere especialmente a complexos empresariais com utilização de diferentes profissionais, que atuam fragmentariamente sendo direcionados pelos editores a serviço da filosofia dos Donos da mídia: acionistas – poder financeiro, grupos políticos, religiosos, lobbyes de toda espécie.
Admirável Mundo Novo e Matrix: materia-espírito, poder, manipulação.
Babel como matriz da tentação totalitária. Hitler, Stálin, Mao Tse Tung,… Mamom. Fundamentalismo econômico (mercado), religioso, filosófico, científico, secularista.
Técnicas sempre em aperfeiçoamento, cada vez mais potentes e assemelhadas ao cérebro e corpo humano. Interação indivíduo-máquina cada vez mais próxima através de conexões neurônio-chip. Nanotecnologia construindo homem/mulher do futuro. Próteses, bancos de órgãos artificiais.
Futuro não-biológico, presente com reprodução não-sexuada.
Desaparecimento do afeto e do humano? Ou outro tipo de pessoa humana?
Sexualidade: instinto, cultura e espírito.
Pulsões e diversidade sexual. Quase-determinismo.
Condicionamentos sociais: história, ambiente, tempo, valores, tabus.
Transcendência e liberdade: autodeterminação. O sopro de Deus.
Como diferentes faixas de pessoas processam a massa de estímulos e versões sexuais onipresentes no espaço público e pelos meios eletrônicos. Inocência e perversão.
Resistir é preciso.
Senso de autodefesa. Pele psíquica e resiliência – capacitação e preservação da dignidade, da identidade e autonomia pessoal. Proteção dos descapacitados. Educação e formação crítica e crística.
No campo social, Democracia laica.
Uma senha e identidade inviolável: Apocalipse 2:17.
“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe”.
O que quero alimentar/fortalecer em mim? Críticos e Crísticos.
As Escrituras orientam-nos a resistir à carne e ao diabo, deixar o pecado. Não diz que o diabo deixará de nos enganar, nem que a carne deixará de nos tentar.
Realismo bíblico: não há vitória sem desejo e sem luta.
Buscaremos atalhos e desvios ou iremos decididamente caminhar rumo a Terra prometida?

Veja como foi a Mesa Redonda com o Portal da Juventude Paulista.

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Coordenadoria Estadual de Juventude

A Coordenadoria Estadual de Juventude realizou na quarta-feira sua primeira Mesa Redonda com o Portal da Juventude Paulista. O objetivo foi reunir gestores de juventude e os próprios jovens para que eles pudessem visitar o site e, em seguida, dar suas opiniões e sugestões sobre como tornar o Portal ainda melhor. Na mesma ocasião, o Conselho Nacional de Juventude apresentou, à coordenadora Mariana Montoro Jens e demais gestores presentes, o Pacto Pela Juventude.

O evento aconteceu no Centro Cultural de Juventude, da Prefeitura de São Paulo, que fica na zona norte da Capital. Dezenas de pessoas estiveram presentes, entre líderes comunitários, membros de conselhos de juventude e jovens de todas as idades. Um deles era Márcio Uno, de 22 anos. “Gostei do Portal”, disse ele logo após navegar pelas páginas do site por vários minutos. Depois, ele aproveitou para registrar sua impressão. “Dei uma dica para o Divirta-se, que deveria dar roteiro de visitação de parques, museus, espetáculos.” Dica anotada, Márcio!

O líder comunitário Gilson Rodrigues, de 24 anos, também aprovou o Portal da Juventude Paulista. “Facilita o canal de comunicação da juventude com as secretarias”, explicou ele, que é membro do Conselho Nacional de Juventude, do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB) e presidente União dos Moradores de Paraisópolis.

“Deveriam divulgar mais o Portal e sugerir mudanças em ações e projetos, para que eles mudem a realidade social destes jovens mais carentes.”

Já Edvaldo Felisberto dos Santos, o Ed, afirmou não ter sugestões. “Achei muito bacana o Portal, tem bastante conteúdo. Acho que está bom, não precisa mudar nada”, disse o instrutor de skate de 29 anos. Acrízio do Nascimento, 28, aproveitou para elogiar o visual colorido do Portal.

Mantendo as conferências de juventude vivas

São Paulo se tornou, no dia 20 de agosto, o primeiro Estado do Brasil a aderir ao Pacto Pela Juventude, uma iniciativa do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) de manter as 22 propostas da I Conferência Nacional de Políticas Públicas, além das outras demandas regionais e estaduais, na pauta do poder público pelo País.

Segundo a vice-presidente do Conjuve, Maria Virgínia de Freitas, a Magi, o Pacto será implementado por meio de um conjunto de ações e compromissos dos governos municipais, estaduais e federal. Ela também reforça a importância de todos os municípios terem um órgão dedicado exclusivamente à juventude, seja ele uma coordenadoria, secretaria ou assessoria. “Elas devem ter as articulações necessárias para fazer com que os representantes do poder público reconheçam as demandas da juventude”, explica.

Também presente no evento, o Secretário Nacional de Juventude Beto Cury explicou que as prioridades eleitas no evento nacional do ciclo de conferências de juventude devem ser utilizadas para aprofundar o debate sobre os temas que interessam aos e às jovens de hoje. “Não pode entender as propostas como uma imposição da Conferência.”

A Coordenadora Estadual de Juventude Mariana Montoro Jens conta que o Estado de São Paulo já vem cumprindo, na prática, com a tarefa de ampliação dos debates e fortalecimento da demanda juvenil, por meio da criação de cada vez mais conselhos, coordenadorias e secretarias em diversos municípios paulistas, além do apoio a eventos sugeridos e organizados pela própria juventude. “Conseguimos apoiar um evento que nos deixou muito orgulhosas, que foi o I Encontro Nacional de Jovens Surdos, além do Fórum Nacional da Juventude Negra”, exemplificou ela. Mariana também citou o Portal da Juventude Paulista como uma ferramenta para amplificar as vozes dos jovens pelo Estado sobre o que estão fazendo em suas comunidades. Entre os destaques do mês estão jovens que realizaram o I Fórum da Juventude de Sertãozinho (na Região Administrativa de Ribeirão Preto) e a possa da nova diretoria do Parlamento Jovem de Osvaldo Cruz (Região de Presidente Prudente).

O Chamado Profético na Política

3 Comentários » quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Carlos Bezerra Jr.

O assunto me mobiliza. Talvez seja o discurso da minha vida. Mas pudera, não é? Encontrar o propósito de Deus em nosso cotidiano é a tarefa principal de cada ser humano. No dia-a-dia do médico, absorto no sofrimento dos seus pacientes, é fácil. No da assistente social e seus desvalidos, no do advogado e os injustiçados da vida, no do empresário que sustenta tantas famílias com seu negócio. Bom, mas meu cotidiano é a política, e daí? Pois me arrisco a dizer, e explicarei nas próximas linhas, que não existe vocação mais santa do que a vida pública. Pelo menos era o que dizia Calvino.

      Primeiramente, gostaria de analisar a aversão que se formou na igreja quanto à política. A ascensão dos evangélicos no cenário nacional levou à inexorável eleição de representantes. Assim mesmo é que deve ser: todo e qualquer grupo social tem de se fazer representado no Congresso. Porém, desde aquela época, o pensamento corrente era o menos correto: temos de ocupar o parlamento para defender os interesses da Igreja, ou, pior, da nossa denominação! O fim disso, como se viu, foi devastador: não houve um grande escândalo nacional ou local que não tivesse um evangélico envolvido. Que desolação!

      Entre todas as explicações plausíveis, passamos a pensar que a política é algo sujo mesmo, a serviço de satanás, que não havia jeito. Mas na verdade isso é um engano. Imagino que o povo de Deus no deserto também chegou a pensar que aquela aridez era infinita e que a Terra Prometida era uma ilusão qualquer, quando, de fato, ela existia. E qual seria a promessa para a política, então? Ora, para o que ela foi criada: promover a Justiça entre todos os cidadãos. Sim, é a arte da negociação, mas numa visão bem republicana, com a qual conduzimos a política hoje, é o cuidar bem da “res” pública, e na visão democrata, cuidar de forma que a vontade da maioria prevaleça.

      E o que é a justiça? É dar a cada um o que é seu, dizia Tomás de Aquino. É justo que um estudante de classe média, que sempre estudou em bons colégios, dispute o vestibular da USP em pé de igualdade com rapaz pobre da periferia que estudou em escolas públicas depredadas? Sem dúvida, não é. No Brasil, a pobreza tem cor: é negra. Por isso, a política vem discutindo as cotas como forma de compensar a injustiça no acesso à universidade. Você pode discordar delas, mas, enfim, é pelo menos uma tentativa.

      Quando passei a me debruçar sobre a questão do abuso e da violência sexual contra crianças, fui questionado sobre o porquê de me dedicar tão severamente a um tema. Havia várias respostas na ponta da língua. Chega a ser óbvio lutar para impedir tamanha barbaridade, mas não pensei duas vezes antes de responder: por causa da injustiça. Imagine construir uma sociedade sobre as marcas do abuso? “A injustiça em qualquer parte é uma ameaça à justiça em toda parte”, dizia Martin Luther King, que lutou pela igualdade racial nos Estados Unidos e que, coincidência, vai… era pastor batista. Somos, nós todos cristãos, os bem-aventurados dessa sociedade que têm sede e fome de justiça.

      Mas ao elegermos tantos cristãos no passado, não estávamos preocupados com “o mundo”, com a justiça, com os que sofrem, estávamos, isso sim, atentos ao nosso próprio umbigo: como disse, queríamos pessoas que defendessem a igreja no Congresso, estavam muitos dos líderes ocupados com a formação de seus impérios. Pode uma fonte dar água limpa e suja ao mesmo tempo?, questionou o Mestre certa feita. Da mesma forma, enviar à política pessoas imbuídas do propósito de apenas proteger as denominações resultou na formação de um típico homem público evangélico: o despachante de igreja. Como ousamos questionar quem se elege para defender seus próprios interesses quando elegemos muitos para defender os nossos? Ora, quem protege a igreja de Cristo é o Dono dela!

      Estamos, nós, cristãos, em qualquer lugar, prontos para servir. Há verdadeiramente uma maneira de atuar de forma profética na política e somos chamados com urgência para isso. A sociedade anseia por soluções onde o debate sobre o futuro é travado, ou seja, na política. Injustiça social, miséria, aquecimento global, desmatamento, meu Deus, são tantas as questões! Que adianta engordarmos espiritualmente dentro de nossas comunidades se os frutos que damos não chegam a quem tem fome? No passado, os profetas de Deus eram aqueles que diagnosticavam o presente e apontavam soluções para o futuro, denunciavam que havia morte na panela, que havia injustiça, que havia crise moral. Agora, parece-me que nos esquecemos que profecia não fala de futuro, fala de verdade moral, condena o aviltamento dos valores da família e defende uma postura progressista nas questões de justiça racial, apenas para citar exemplos.

      Como cristão, vejo crianças abandonadas em lagoas para que morram à própria sorte, vejo crianças atiradas pela janela, vejo a explosão da pedofilia na Internet. Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, uma criança é abusada sexualmente no Brasil a cada 8 minutos. Senhor, não posso ficar de braços cruzados diante desse descalabro! Não posso dormir um sono tranqüilo ouvindo o pedido de socorro de tantas crianças. Há pouco mais de um mês uma lei de minha autoria criou o Programa Municipal de Conscientização e Combate ao Abuso Sexual e à Violência contra a Criança. Agora, os funcionários de creches serão treinados para identificar e ajudar crianças em perigo, e esse é apenas o começo: a formação se estenderá a médicos, guardas-civis, conselheiros tutelares etc.

      E isso é ainda tão pouco! Em uma sociedade capitalista ao extremo, que elogia a competição, que premia apenas os mais fortes, que sacrifica o Planeta em favor do lucro, que ouve apenas os testemunhos de sucesso financeiro, que exclui radicalmente os mais pobres, nesta sociedade, quem levantará o seu cajado no deserto para lembrar dos idosos, das crianças, da gestante, da viúva? Onde está o papel da Igreja como consciência profética? Sim, continuamos sendo chamados a ser o sal da terra. Sabe que o sal serve não apenas para dar sabor à carne? Ele é também usado para impedir que ela apodreça. Por isso, não desisto de colocar meu candeeiro no parlamento paulistano, porque acredito que é esse o compromisso do cristão autêntico: fazer brilhar a luz de Cristo o máximo que puder. Aliás, vou além, digo que se minha consciência cristã, se minha fé, não me levar a indignar-me com as injustiças nessa cidade, se ela não me fizer buscar novas soluções para os conflitos que vivemos dia a dia, então, que diferença faz ter fé?

* Carlos Bezerra Jr. Médico e vereador da cidade de São Paulo em segundo mandato, postulante nas eleições municipais deste ano ao terceiro mandato consecutivo. É o único vereador evangélico apontado pela ONG Voto Consciente como um dos melhores parlamentares do legislativo paulistano. Pastor da Igreja Comunidade da Graça, trabalhou como médico em postos de saúde na periferia de São Paulo, e criou a Fundação Comunidade da Graça, entidade que realiza 500 mil atendimentos gratuitos por ano. Como parlamentar, Carlos Bezerra Jr. presidiu a Comissão de Juventude, foi membro da Comissão de Constituição e Justiça, e liderou a bancada do PSDB em 2007. Entre seus projetos mais destacados, estão a criação do Programa de Combate à Violência e ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes, a lei que prevê multa e fechamento de qualquer estabelecimento comercial que vender bebida a menores de 18 anos e a criação o Conselho de Juventude. Carlos Bezerra Jr. é um dos idealizadores e apoiador do encontro anual Usina 21.

O Empreendedorismo e o Futuro dos Jovens

Nenhum comentário » quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A principal causa mortis dos brasileiros com idade entre 15 e 24 anos é o homicídio. Nossos jovens estão morrendo à bala, literalmente. Estivéssemos no Afeganistão ou em qualquer outro país em guerra, o dado seria irrelevante. Mas moramos em um paraíso tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Por que morrem nossos jovens? Óbvio que não são por crimes passionais, não são por conflitos entre gangues ou pelo vazio existencial que leva estudantes de países ricos a metralharem seus colegas de escola. Nossos jovens morrem na guerra urbana do tráfico de drogas, nas chacinas, nas disputas por “pontos”.

O fato é que eles acabam na mão do crime organizado, grupo este comandado por eles mesmos. Sim, as facções criminosas que desafiam o Estado são comandadas por jovens. O sistema capilar de distribuição de cocaína no Rio é pensado e administrado por jovens. São eles também os que se escondem por trás das redes de roubo a veículos nas capitais e em tantas outras práticas criminosas.

Falamos nos jovens criminosos como aberrações, como se fossem uma outra cepa de brasileiros, apodrecida, sem concerto. Ninguém lamenta os mortos da chacina, nem o traficante baleado pela polícia. Não há quem pense no futuro que se encerra ali, naquele jovem morto, naquele brasileiro que constituía um projeto de cidadão, abortado tão precocemente.

Quando vejo os números assustadores de morte e criminalidade nas grandes cidades, não consigo deixar de pensar no quanto a capacidade empreendedora da nossa juventude é tão imensa quanto desperdiçada, imagino como o Brasil seria diferente se ao invés de uma submetralhadora na mão, esse jovem, atraído pelo tráfico, tivesse melhores oportunidades no mercado de trabalho ou um diploma, ou apenas uma chance de mostrar o quanto pode ser inteligente, capaz e empreendedor.

Vale dizer que o Relatório Executivo sobre Empreendedorismo no Brasil de 2006 , preparado pelo Projeto GEM BRASIL, concluiu que “os programas educacionais existentes no País não estimulam suficientemente a promoção de um espírito mais empreendedor nas pessoas” (ver Global Entrepreneurship Monitor 2006, página 8). Assim, qual o melhor caminho a seguir?

O que proponho é acreditarmos na força do movimento de empreendedorismo jovem e darmos o apoio necessário para que tais iniciativas se multipliquem por todo o País.
A Associação Comercial de São Paulo, centenária entidade voltada para a defesa da livre iniciativa, nos dá o exemplo: há quase 25 anos foi a pioneira na criação do primeiro desses grupos no País.

Nessa linha, a lei que propus na Câmara em 2006 (nº. 14.251), que cria a Semana do Jovem Empreendedor em São Paulo , é fruto de discussões e debates que tive com os membros do Fórum de Jovens Empreendedores da Associação Comercial de São Paulo (FJE-ACSP) há exatamente dois anos, por ocasião do 10º Fórum Mundial de Jovens Empreendedores, patrocinado pela Associação Comercial de São Paulo e sob a presidência de honra do atual Secretário do Emprego e Relações do Trabalho, Sr. Guilherme Afif Domingos.

A lei da Semana do Jovem Empreendedor em São Paulo tem sido levada pela Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje) a diversas capitais do Brasil. E espero que a realização de semanas paralelas, em vários locais do Brasil, venha a ser o embrião de um projeto nacional de discussão da importância do empreendedorismo no resgate dos jovens brasileiros.

Com isso tudo, tenho a esperança de que a mesma juventude que hoje se afunda em violência nas nossas metrópoles, com a capacidade e audácia do empreendedorismo, faça do Brasil um país de paz e prosperidade, um lugar onde a maioria dos jovens simplesmente envelhece, lutando por seu lugar ao sol, de modo digno e seguro.

* Carlos Bezerra Jr. é médico e vereador de São Paulo pelo PSDB. É o autor da Lei 14.251, que institui a Semana do Jovem Empreendedor de São Paulo

Voz que clama na floresta…

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ATINI

O garoto Bibi tinha nove anos quando tomou a decisão de proteger do risco da morte sua irmã Hakani, de 3 anos. Ambos são Suruwahá (etnia semi-isolada no sul da Amazônia). A indiazinha nasceu com uma defi ciência neuromotora. Segundo costume da tribo, ela é filha de um “espírito mau” e, portanto, deveria ser morta. Os pais prepararam o líquido venenoso extraído de um cipó, mas não tiveram coragem de matá-la. Cometeram suicídio.

Hakani é uma das várias personagens de um drama real entre tribos indígenas no Brasil: a morte de crianças recém-nascidas por motivos culturais. As mortes muitas vezes estão relacionadas à garantia da sobrevivência econômica de toda a tribo, à escassez no ecossistema, ao controle de natalidade ou ao equilíbrio entre os sexos. Hakani sobreviveu graças à sua resistência e sua vontade de viver. Graças também à ajuda de seu irmão Bibi (hoje com 18 anos) e do casal de missionários Edson e Márcia Suzuki, que buscaram atendimento médico para ela.

Uma outra personagem do drama é Muwaji Suruwaha, dos Zuruahã (etnia semi-isolada no Amazonas). Muwaji havia decidido abandonar a filha nascida com paralisia cerebral. Entregou-a aos familiares para que a matassem, mas depois se arrependeu. Com a ajuda dos Suzuki, a pequena Iganani está se reabilitando na Rede de Hospitais Sarah em Brasília.

Hakani e Iganani resistiram incansavelmente, mesmo rejeitadas por seus povos. Essas duas histórias fizeram com que o casal Suzuki, etnolinguistas e missionários entre os indígenas há mais de 20 anos, tomasse duas decisões corajosas. A primeira, adotar a órfã Hakani, mesmo com toda burocracia que envolve tal tipo de adoção. A segunda, abrir a boca em favor das crianças indígenas que nascem condenadas à morte.

Hakani, hoje com 12 anos de idade, vive uma infância alegre, fazendo juz ao significado de seu nome (“sorriso”). A segunda decisão foi só o início de uma grande luta. Depois de ajudar Muwaji, outros pais indígenas também pediram o apoio do casal de missionários para salvar seus fi lhos. “Como negar ajuda às mães indígenas que nos procuravam para salvar seus filhos, sem ser incoerentes com a mensagem do Reino de Deus?”, questiona o casal.

Voz Pela Vida
Surgiu então em 2006 a ONG ATINI – Voz Pela Vida. Mesmo com pouca estrutura e experiência, a ATINI se engajou no esforço para que o governo e a sociedade considerem o “infanticídio indígena”¹ uma situação real que exige ações públicas de cuidado e proteção. “Não queremos punir os indígenas; apenas garantir o socorro às crianças em risco”, afirmam os Suzuki.

A oposição de alguns antropólogos e órgãos do governo tornou a causa ainda mais difícil. “Eles confundem respeito à diversidade cultural com tolerância universal. Acham que tudo é possível em nome da cultura”, critica Márcia.

No entanto, a ATINI tem recebido apoio de igrejas, líderes indígenas, antropólogos e políticos.

Um dos respeitados líderes indígenas do Xingu, Kotok Kamayurá, disse que “o tempo de enterrar crianças já passou; hoje precisamos de ajuda para criá-las”. Em carta oficial endereçada à ONG, o Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (CONPLEI) declara que a “vida precede a cultura”.

O tamanho do desafio

Nem o Ministério da Saúde nem a Fundação Nacional de Saúde têm dados precisos sobre a morte de crianças indígenas por conta de razões culturais.

Diante do desafi o, as crianças salvas são a garantia de que vale a pena defendê-las. Toda criança indígena tem o direito à saúde. Cabe ao governo a responsabilidade de garantir esse direito. Negar socorro é caminhar na direção oposta.²

Os grandes heróis deste drama, na verdade, são os pais e as mães que, mesmo vulneráveis em suas tribos, lutam para manter a vida de seus filhos.


Notas:¹ Do ponto de vista legal, o termo não é apropriado, porque “infanticídio” se refere a recém-nascidos mortos pela mãe em estado puerperal. Informalmente, no entanto, é usado, já que textos antropológicos evitam o termo “assassinato”.

² O deputado federal Henrique Afonso (PT-AC) elaborou um projeto de lei, ainda em discussão na Câmara Federal, chamado Lei Muwaji, que regula e promove o diálogo construtivo pró-vida com os povos indígenas em nosso país.

Painel sobre a questão indígena

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Revista Ultimato

Entre os protestantes, os primeiros missionários que se dedicaram à evangelização dos indígenas brasileiros foram os que vieram para o Brasil por ocasião da invasão francesa, na metade do século 16. Menos de cem anos depois, alguns pastores da Igreja Cristã Reformada, organizada no Nordeste na época da ocupação holandesa (1630-1654), se dedicaram a esse ministério. Depois de um longo intervalo de 260 anos, começaram a chegar missionários anglo-saxões de diferentes missões. A inclusão de missionários nacionais tomou força na metade do século 20. Desde a organização do Instituto Bíblico Cades Barnéia, em 1980, indígenas evangélicos começaram a evangelizar seus próprios irmãos nativos. Como resultado, os próprios pastores e missionários indígenas organizaram o CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas). Participam desta entrevista os indígenas “Henrique Terena” (casado, presidente do CONPLEI), “Eli Ticuna” (casado, vice-presidente do CONPLEI), e os não-indígenas “Márcia Suzuki” (casada, missionária metodista especializada em lingüística indígena, presidente da ATINI- voz pela vida) e “Ronaldo Lidório” (casado, foi missionário em Gana, na África, onde traduziu o Novo Testamento para uma das línguas dos Konkombas).

Ultimato — As fotos aéreas de grupos indígenas autônomos nas proximidades da fronteira do Acre com o Peru, divulgadas pela Funai no início de junho, sugerem que ainda há ajuntamentos indígenas não conhecidos no país?
Ronaldo Lidório —
Há cerca de 258 etnias indígenas no Brasil e possivelmente mais de cinqüenta ainda sem contato com outros grupos, as isoladas. Entre estas certamente vários grupos permanecem desconhecidos. Normalmente trata-se de grupos que se distanciaram de outros em um passado remoto devido a conflitos ou em busca de melhor subsistência. Em alguns casos, por preferirem a reclusão, se afastam quando há alguma movimentação incomum em sua área de habitação. Como a região Amazônica é vastíssima e tais grupos são minoritários, há possibilidade de haver um número maior do que se imagina.

Ultimato — Talvez pela primeira vez na história moderna do Brasil, diferentes grupos indígenas promoveram ações isoladas em pelo menos seis estados, em favor de seus direitos. Isso foi bom ou ruim?
Eli Ticuna —
O indígena deve aprender a usar a arma do branco no processo de busca de seus direitos sem uso da violência; aquilo que está na mente deve ser transferido para a escrita. Reivindicar os direitos de forma oral não funciona para os brancos. Desde a colonização sempre houve uma disputa desigual. Enquanto o indígena usava o arco e a flecha para proteger seus direitos e se defender dos abusos, o colono português já usava a arma de fogo como instrumento de guerra e de domínio. É um avanço quando os indígenas assumem o protagonismo de seu destino. Ninguém melhor que os próprios índios para participarem da elaboração de projetos de leis, pois quem conhece melhor a realidade indígena é o próprio índio, daí a importância de ele aprender o sistema da burocracia segundo a cultura ocidental.

Ultimato — Como vocês avaliam e interpretam o pronunciamento do ex-presidente José Sarney, no artigo publicado na “Folha” de 6 de junho: “Talvez precisemos colocar em nossos corações o coração dos índios, para amá-los e entendê-los”?
Eli Ticuna —
É uma expressão de profundo significado, aliás, é um desejo do próprio ser humano. Pena que não é fácil praticá-la. Para entender a realidade do outro ou até mesmo para trazer para dentro de si o coração do próximo é necessário ter uma verdadeira experiência e um profundo mergulho na realidade do outro.

Ultimato — Há quanto tempo foi organizado o Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (CONPLEI)? O que ele pretende?
Henrique Terena —
Desde a sua primeira reunião até agora já são dezoito anos, mas apenas oito anos como entidade juridicamente reconhecida. O CONPLEI tem alguns alvos bem definidos: treinamento de lideranças indígenas, fórum de debates e fortalecimentos das igrejas indígenas.

Ultimato — Parece que vocês estão esperando mais de 2 mil pessoas para o Congresso do CONPLEI a realizar-se em Manaus, em setembro, representando cerca de sessenta etnias brasileiras e 25 etnias de outros países. O que pretende essa grande assembléia?
Henrique Terena —
A razão principal é reunir o povo de Deus, indígena ou não, para uma celebração daquilo que Deus fez e está fazendo no meio das nações indígenas, e com isso chamar a uma responsabilidade da pregação do evangelho para aqueles que ainda estão na lista dos chamados não alcançados.

Ultimato — Perante o confronto ético em relação ao infanticídio, qual a ação mais relevante: a preservação da cultura ou da vida?
Márcia Suzuki —
Esse conflito ético existe para quem? Em nossa experiência, de mais de 25 anos de convivência com os povos indígenas como missionários, lingüistas e etno-educadores, ficamos marcados pelo sofrimento que acompanha a prática do infanticídio. O infanticídio não é uma prática pacífica nem para as famílias envolvidas nem para os povos que a praticam. Os pais de nossa filha adotiva Hakani, da etnia Suruwahá, preferiram se suicidar a sacrificá-la. Esse confronto ético geralmente não existe na cabeça dos familiares envolvidos — existe mais na mentalidade e na ideologia dos não-índios. As mães indígenas são amorosas e sensíveis e só cedem a essa prática dolorosa por absoluta falta de alternativas. Nosso papel é oferecer a elas essas alternativas. A cultura é dinâmica e existe como um mapa que ajuda a ler a realidade. Quando surgem novos dados, qualquer sociedade, indígena ou não, é capaz de ler esses dados e usá-los para reinventar sua cultura. Aliás, esse aparente conflito entre preservação da cultura e proteção à vida não existe nem na lei — tanto a legislação brasileira quanto os acordos internacionais de direitos humanos garantem o direito à vida como cláusula pétrea, inegociável. O governo e a sociedade têm o dever de implementar a defesa dos direitos fundamentais da criança, com “prioridade absoluta”, independente da etnia.

Ultimato — O que o deputado Henrique Afonso (PT-AC) pretende com o Projeto de Lei nº 1057, batizado de Lei Muwaji?
Márcia Suzuki —
A Lei Muwaji tem um papel simbólico muito importante. Se não fosse pelo projeto, esse assunto nunca seria abordado pela mídia e pela sociedade. As crianças e mães indígenas continuariam sofrendo no anonimato. O projeto, mesmo antes de ser votado, chamou atenção para o problema e isso é muito bom.
Além disso, a lei vai ajudar a resolver o conflito ético na cabeça das pessoas que lidam com os povos indígenas (como já disse, o conflito está na cabeça delas). Com uma lei específica, fica claro para elas que defender os direitos dessas crianças não constitui um ato de ilegalidade. Pelo contrário, o ilegal é uma enfermeira, por exemplo, deixar uma criança ser enterrada viva e virar o rosto para não sofrer. A lei criminaliza a omissão e força o governo a providenciar alternativas para ajudar os povos indígenas a superar a prática do infanticídio.

Ultimato — Podemos avaliar as atuais críticas à presença estrangeira na Amazônia como fator negativo à preservação ambiental e cultural?
Ronaldo Lidório —
A lei do estrangeiro precisa ser avaliada de acordo com as múltiplas realidades que temos no Brasil hoje. Se por um lado visa-se adequar a presença estrangeira e de instituições estrangeiras no Brasil, por outro é fato que há ótimas parcerias tanto do Estado quanto da iniciativa privada com instituições estrangeiras para o desenvolvimento social em áreas específicas de nosso país, com ótimos resultados comunitários. Os projetos propostos e desenvolvidos devem ser avaliados de acordo com seu valor, utilidade e integridade, e não apenas de acordo com a cidadania de seu proponente. É simplismo pensar que a cidadania do proponente define a autenticidade de suas ações.

Ultimato — Os indígenas brasileiros se consideram brasileiros? Numa hipotética ocupação estrangeira da Amazônia, eles ficariam de que lado?
Eli Ticuna —
O indígena tem consciência de sua nacionalidade e o país é testemunha de que eles nunca foram agentes de divisão. O índio é um cidadão brasileiro, portanto é necessário que seus direitos e obrigações estejam bem definidos. A presença de ONG’s entre os indígenas deve-se à ausência do governo. Não fosse a ação dessas organizações a situação da sociedade indígena seria muito mais precária. Há ONG’s estrangeiras e nacionais sérias e com boas intenções, totalmente dedicadas à promoção da ajuda humanitária.

Você conhece o Pacto de Lausanne?

Nenhum comentário » quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Levi Correa Araújo

 

Lausanne, na Suíça é o lugar em que ocorreu o Congresso Internacional de Evangelização em 1974. Líderes cristãos de 150 países compareceram, e daí surgiu o Lausanne Committee for World Evangelization (Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial). Esse congresso também estabeleceu um pacto, este que você lê abaixo. Este pacto foi assinado por 2.300 evangélicos que se comprometeram a ir mais a fundo no compromisso com a evangelização mundial. Desde então o pacto tem sido uma das maiores referências para igrejas e missões em todo o mundo. Nós da juventude, não poderíamos deixar de pesquisar essa referência e registro histórico. Vale MUITO a pena conferir:

 

Introdução 

Nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, procedentes de mais de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos fracassos e dasafiados pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo, e por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, portanto, reafirmar a nossa fé e a nossa resolução, e tornar público o nosso pacto. 

1. O propósito de Deus Afirmamos a nossa crença no único Deus eterno, Criador e Senhor do Mundo, Pai, Filho e Espírito Santo, que governa todas as coisas segundo o propósito da sua vontade. Ele tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo como seus servos e testemunhas, para estender o seu reino, edificar o corpo de Cristo, e também para a glória do seu nome. Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou nos termos isolado demasiadamente. Contudo, regozijamo-nos com o fato de que, mesmo transportado em vasos de barro, o evangelho continua sendo um tesouro precioso. À tarefa de tornar esse tesouro conhecido, no poder do Espírito Santo, desejamos dedicar-nos novamente. 

2. A autoridade e o poder da Bíblia 

Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e pratica. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Ele ilumina as mentes do povo de Deus em toda cultura, de modo a perceberem a sua verdade, de maneira sempre nova, com os próprios olhos, e assim revela a toda a igreja uma porção cada vez maior da multiforme sabedoria de Deus. 

3. A unicidade e a universalidade de Cristo Afirmamos que há um só Salvador e um só evangelho, embora exista uma ampla variedade de maneiras de se realizar a obra de evangelização. Reconhecemos que todos os homens têm algum conhecimento de Deus através da revelação geral de Deus na natureza. Mas negamos que tal conhecimento possa salvar, pois os homens, por sua injustiça, suprimem a verdade. Também rejeitamos, como depreciativo de Cristo e do evangelho, todo e qualquer tipo de sincretismo ou de diálogo cujo pressuposto seja o de que Cristo fala igualmente através de todas as religiões e ideologias. Jesus Cristo, sendo ele próprio o único Deus-homem, que se deu uma só vez em resgate pelos pecadores, é o único mediador entre Deus e o homem. Não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos. Todos os homens estão perecendo por causa do pecado, mas Deus ama todos os homens, desejando que nenhum pereça, mas que todos se arrependam. Entretanto, os que rejeitam Cristo repudiam o gozo da salvação e condenam-se à separação eterna de Deus. Proclamar Jesus como “o Salvador do mundo” não é afirmar que todos os homens, automaticamente, ou ao final de tudo, serão salvos; e muito menos que todas as religiões ofereçam salvação em Cristo. Trata-se antes de proclamar o amor de Deus por um mundo de pecadores e convidar todos os homens a se entregarem a ele como Salvador e Senhor no sincero compromisso pessoal de arrependimento e fé. Jesus Cristo foi exaltado sobre todo e qualquer nome. Anelamos pelo dia em que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua o confessará como Senhor. 

4. A natureza da evangelização 

Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo. 

5. A responsabilidade social cristã Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta. 

6. A Igreja e a evangelização 

Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas. 

7. Cooperação na evangelização Afirmamos que é propósito de Deus haver na igreja uma unidade visível de pensamento quanto à verdade. A evangelização também nos convoca à unidade, porque o ser um só corpo reforça o nosso testemunho, assim como a nossa desunião enfraquece o nosso evangelho de reconciliação. Reconhecemos, entretanto, que a unidade organizacional pode tomar muitas formas e não ativa necessariamente a evangelização. Contudo, nós, que partilhamos a mesma fé bíblica, devemos estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho. Confessamos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço. Empenhamo-nos por encontrar uma unidade mais profunda na verdade, na adoração, na santidade e na missão. Instamos para que se apresse o desenvolvimento de uma cooperação regional e funcional para maior amplitude da missão da igreja, para o planejamento estratégico, para o encorajamento mútuo, e para o compartilhamento de recursos e de experiências. 

8. Esforço conjugado de Igrejas na evangelização 

Regozijamo-nos com o alvorecer de uma nova era missionária. O papel dominante das missões ocidentais está desaparecendo rapidamente. Deus está levantando das igrejas mais jovens um grande e novo recurso para a evangelização mundial, demonstrando assim que a responsabilidade de evangelizar pertence a todo o corpo de Cristo. Todas as igrejas, portando, devem perguntar a Deus, e a si próprias, o que deveriam estar fazendo tanto para alcançar suas próprias áreas como para enviar missionários a outras partes do mundo. Deve ser permanente o processo de reavaliação da nossa responsabilidade e atuação missionária. Assim, haverá um crescente esforço conjugado pelas igrejas, o que revelará com maior clareza o caráter universal da igreja de Cristo. Também agradecemos a Deus pela existência de instituições que laboram na tradução da Bíblia, na educação teológica, no uso dos meios de comunicação de massa, na literatura cristã, na evangelização, em missões, no avivamento de igrejas e em outros campos especializados. Elas também devem empenhar-se em constante auto-exame que as levem a uma avaliação correta de sua eficácia como parte da missão da igreja. 

9. Urgência da tarefa evangelística Mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, ou seja, mais de dois terços da humanidade, ainda estão por serem evangelizadas. Causa-nos vergonha ver tanta gente esquecida; continua sendo uma reprimenda para nós e para toda a igreja. Existe agora, entretanto, em muitas partes do mundo, uma receptividade sem precedentes ao Senhor Jesus Cristo. Estamos convencidos de que esta é a ocasião para que as igrejas e as instituições para-eclesiásticas orem com seriedade pela salvação dos não-alcançados e se lancem em novos esforços para realizarem a evangelização mundial. A redução de missionários estrangeiros e de dinheiro num país evangelizado algumas vezes talvez seja necessária para facilitar o crescimento da igreja nacional em autonomia, e para liberar recursos para áreas ainda não evangelizadas. Deve haver um fluxo cada vez mais livre de missionários entre os seis continentes num espírito de abnegação e prontidão em servir. O alvo deve ser o de conseguir por todos os meios possíveis e no menor espaço de tempo, que toda pessoa tenha a oportunidade de ouvir, de compreender e de receber as boas novas. Não podemos esperar atingir esse alvo sem sacrifício. Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de pessoas, e conturbados pelas injustiças que a provocam. Aqueles dentre nós que vivem em meio à opulência aceitam como obrigação sua desenvolver um estilo de vida simples a fim de contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles. 

10. Evangelização e cultura 

O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus. 

11. Educação e liderança Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes. Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço. Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiáticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos. 

12. Conflito espiritual 

Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e postestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico. Reconhecemos que nós mesmos não somos imunes ao perigo de capitularmos ao secularismo. Por exemplo, embora tendo à nossa disposição pesquisas bem preparadas, valiosas, sobre o crescimento da igreja, tanto no sentido numérico como espiritual, às vezes não as temos utilizado. Por outro lado, por vezes tem acontecido que, na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo utilizando-as de forma desonesta. A igreja tem que estar no mundo; o mundo não tem que estar na igreja. 

13. Liberdade e perseguição É dever de toda nação, dever que foi estabelecido por Deus, assegurar condições de paz, de justiça e de liberdade em que a igreja possa obedecer a Deus, servir a Cristo Senhor e pregar o evangelho sem impedimentos. Portanto, oramos pelos líderes das nações e com eles instamos para que garantam a liberdade de pensamento e de consciência, e a liberdade de praticar e propagar a religião, de acordo com a vontade de Deus, e com o que vem expresso na Declaração Universal do Direitos Humanos. Também expressamos nossa profunda preocupação com todos os que foram injustamente encarcerados, especialmente com nossos irmãos que estão sofrendo por causa do seu testemunho do Senhor Jesus. Prometemos orar e trabalhar pela libertação deles. Ao mesmo tempo, recusamo-nos a ser intimidados por sua situação. Com a ajuda de Deus, nós também procuraremos nos opor a toda injustiça e permanecer fiéis ao evangelho, seja a que custo for. Não nos esqueçamos de que Jesus nos previniu de que a perseguição é inevitável. 

14. O poder do Espírito Santo 

Cremos no poder do Espírito Santo. O pai enviou o seu Espírito para dar testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. Convicção de pecado, fé em Cristo, novo nascimento cristão, é tudo obra dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário, de maneira que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito. A igreja que não é missionária contradiz a si mesma e debela o Espírito. A evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder. Portanto, instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do soberano Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu povo, e que todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja inteira se tornará um instrumento adequado em Suas mãos, para que toda a terra ouça a Sua voz. 

15. O retorno de Cristo Cremos que Jesus Cristo voltará pessoal e visivelmente, em poder e glória, para consumar a salvação e o juízo. Esta promessa de sua vinda é um estímulo ainda maior à evangelização, pois lembramo-nos de que ele disse que o evangelho deve ser primeiramente pregado a todas as nações. Acreditamos que o período que vai desde a ascensão de Cristo até o seu retorno será preenchido com a missão do povo de Deus, que não pode parar esta obra antes do Fim. Também nos lembramos da sua advertência de que falsos cristos e falsos profetas apareceriam como precursores do Anticristo. Portanto, rejeitamos como sendo apenas um sonho da vaidade humana a idéia de que o homem possa algum dia construir uma utopia na terra. A nossa confiança cristã é a de que Deus aperfeiçoará o seu reino, e aguardamos ansiosamente esse dia, e o novo céu e a nova terra em que a justiça habitará e Deus reinará para sempre. Enquanto isso, rededicamo-nos ao serviço de Cristo e dos homens em alegre submissão à sua autoridade sobre a totalidade de nossas vidas. 

Conclusão 

Portanto, à luz desta nossa fé e resolução, firmamos um pacto solene com Deus, bem como uns com os outros, de orar, planejar e trabalhar juntos pela evangelização de todo o mundo. Instamos com outros para que se juntem a nós. Que Deus nos ajude por sua graça e para a sua glória a sermos fiéis a este Pacto! Amém. Aleluia!

 

[Lausanne, Suíça, 1974] 

Para maiores informações sobre o movimento de Lausanne, visite Lausanne Committee for World Evangelization (em inglês).

O Fórum Social dos irmãos esquecidos

Nenhum comentário » quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ele é cristão e ganha 2.000 shillings por mês, ou seja, quase 600 reais, para trabalhar numa lavanderia no centro da cidade. Mora num barraco de pouco mais de cinco metros quadrados. Está ali, no meio da turba. Gente cantando, de camisetas coloridas, cartazes contra um tal de Bush. Curioso. De repente um morador da favela do Kibera, Simon Mbali, de 29 anos, me veio à mente na hora de escrever um artigo sobre o Fórum Social Mundial em Nairóbi. Conheci Mbali na marcha de abertura do evento, que começou naquela favela e terminou em um parque público. Ele me contou que seu maior sonho era ter um banheiro em casa. 

Não sei bem se ele tinha idéia do que era o fórum, que se encerrou em 25 de janeiro de 2007. Estava ali, de bobeira. Acredito que muitos dos engajados da marcha não tinham claro o objetivo do evento, que nasceu em 2001 para ser um espaço democrático de debate de idéias e um contraponto ao encontro dos países mais ricos do planeta em Davos. 

Bom, a primeira missão foi cumprida em Nairóbi e é interessante notar o quanto o FSM influiu no aperfeiçoamento de organizações como o Instituto Valores, um grupo de irmãos em Cristo com quem compartilhei esse tempo no Quênia. Já o tal do contraponto, não sei. A mídia minguou no evento e há quem diga que o motivo seja a subserviência ao grande capital. Mas eu desconfio que as propostas que sobreponham o encontro na cidade suíça também minguaram. 

Mbali foi para mim a imagem desse fórum por outro motivo. Ele é irmão como a maioria em Kibera, a favela queniana tão bem retratada no filme O Jardineiro Fiel, do nosso Fernando Meirelles. Talvez por isso, esse tenha sido para mim um dos fóruns de maior público evangélico. Em um domingo, assisti a um culto numa igrejinha de madeira, escura, entre as muitas que existem lá, inclusive filiais de impérios eclesiásticos brasileiros, nosso mais novo produto de exportação. Ainda guardo na memória a oração que recebi de um irmão, mão imposta sobre a minha cabeça. Um tesouro que trouxe de Kibera. 

Saí de Nairóbi com a impressão de ter subido num trem com muitos passageiros, numa viagem a um lugar esquecido, com gente esquecida, com crianças sem infância, sem cor, pouca luz. Um lugar que engole o tempo, as oportunidades, a alegria de viver. A mim, em especial, mais que a pobreza, o que me perturbou na África foi o esquecimento. E o simples fato de o FSM ter escolhido este lugar para realizar a sua marcha já significou e re-significou tudo.

• Carlos Bezerra Jr. é pastor da Comunidade da Graça, médico e vereador de São Paulo em 2º mandato. Participou do Fórum Social Mundial 2007 como palestrante, e os temas de sua preleção foram violência contra criança e abuso sexual infantil