Arquivo de agosto de 2008

O Evangelho ‘Blockbuster’

Nenhum comentário » sábado, 23 de agosto de 2008

O meu conselho ao leitor que anda um tanto decepcionado com a falta de essência do Evangelho pregado em alguns púlpitos é um só: vá ao cinema. Desde “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, Hollywood vem descobrindo na mensagem de Jesus o potencial extraordinário que sempre teve para atrair multidões. Agora é a vez de “As Crônicas de Nárnia – o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, adaptação da série de livros do gênio cristão C. S. Lewis, que promete novas produções pelos próximos dez anos.
A trajetória incrível de “Nárnia”, produção da Disney, está aí para comprovar a minha tese. Desde sua estréia, vem liderando as bilheterias em quase todo o mundo, perdendo a primeira colocação para “King Kong” em um ou outro fim de semana. Classificada pela crítica brasileira como uma espécie de catecismo cinematográfico, a produção é clara ao mostrar os princípios mais basilares da fé cristã usando uma história envolvente.
Para quem nunca leu as crônicas infantis de C. S. Lewis, a trama de “Nárnia” é simples: durante a Segunda Guerra, quatro crianças vão morar num casarão no interior da Inglaterra, que esconde, em uma de suas dezenas de quartos, um guarda-roupa mágico. Entrando nele, o grupo vai parar num reino de fantasia, a Nárnia do título.
Nesse novo mundo, as quatro crianças passarão por aventuras nas quais prevalece a lógica cristã de justiça, perdão, amizade, lealdade –daí a classificação de catecismo. No desenrolar da história, uma das crianças trai o grupo para seguir os próprios interesses, e, segundo a lei de Nárnia, todo traidor tem de morrer. É quando entra em cena Aslam, o leão, o verdadeiro rei do lugar.
Desde que foi dominado por uma personagem má, a Feiticeira Branca, Nárnia vive uma espécie de inverno eterno, que à época da história já dura cem anos. As criaturas do local esperam o cumprimento de uma profecia segundo a qual “dois filhos de Adão e duas filhas de Eva”, surgirão para derrotar a feiticeira e restabelecer o verão. Aslam, o leão, espera a vinda das crianças para executar o seu plano de libertação. No entanto, com a traição de um deles, a situação se complica. Somente o sacrifício voluntário de um justo pode libertar o traidor da sua maldição. Calma, não vou contar o fim da história.
A grande lição de Nárnia e C. S. Lewis aos púlpitos certamente não é a reprodução da lógica do sacrifício cristão. A mensagem não está somente no todo, mas nos detalhes também. O mundo criado pela feiticeira, por exemplo, é frio, objetivo, sem criatividade, monótono, depressivo. Já o do leão Aslam é colorido, imaginativo, os bichos falam, há dríades, faunos e outras criaturas fantasiosas.
Se transportarmos essa lógica para a nossa realidade, muitas igrejas nas quais impera a objetividade do “evangelho-de-resultados” seriam mais semelhantes ao reinado da Feiticeira Branca do que o de Aslam. Afinal, para muitos irmãos, a simples invenção de um fauno pode ser perigosa à fé ou mesmo um adereço sem sentido. Para completar, Aslam, que é o mais poderoso do reino, não procura o poder para si e sim para os outros. Ele reina porque serve e faz dos outros reis também. É um leão livre.
Espero sinceramente que a descoberta de Nárnia por Hollywood nos sirva para reler C. S. Lewis, escritor segundo o qual a maior obra que o diabo pode nos fazer é matar a nossa criatividade, o nosso idealismo, a nossa vontade de libertar o mundo do inverno eterno.

CARLOS BEZERRA JR é médico ginecologista, pastor da Comunidade da Graça e vereador de São Paulo.