A teologia da prosperidade e a miséria
Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 26/1/2007 as 11:03
Pela manhã, fomos ao Kenyatta International Convention Center, centro da cidade onde são feitas e confirmadas as inscrições. Kenyatta é o nome do primeiro presidente do Kenya após a independência, e quase tudo aqui tem o nome dele: rua, avenida, hospital, escola, centro de convenções. Ele governou o país de 1963 a 1978, como ditador. Seu filho é atualmente um dos líderes da oposição. Está nos jornais de hoje.
Aliás, os jornais falam de três pastores com sérios problemas na Justiça, um deles preso. Outro está querendo ser presidente do país. Pensei que essas coisas só aconteciam na minha terra. Tristeza e vergonha.
Tudo fruto da maldita teologia da prosperidade. Entro num carro, em direção ao Parlamento Nacional, ainda pensando nas notícias, e leio um adesivo na porta do motorista: “Vos restituirei os anos consumidos pelo gafanhoto”, texto bíblico preferido dos arautos da barganha com Deus.
Não posso acreditar que essa praga já chegou à África. A algumas quadras dali, uma mega igreja, num galpão enorme, com um símbolo conhecido no Brasil, e um letreiro pintado à mão, onde se lê “Universal Church”.
Se ontem foi o dia da esperança, hoje foi o da perplexidade e tristeza, por ver a pior pirataria do Evangelho ganhando espaço em corações e mentes africanas. E ver que a história de falta de ética, megalomania, ostentação e distorção do Evangelho já têm sua versão africana. E exposta em todos os jornais.
Enquanto as ONG’s disputam espaço no noticiário da discussão por um mundo diferente, algumas igrejas evangélicas, para minha tristeza, ocupam o mesmo espaço mostrando que são a versão acabada de afirmação de valores de um capitalismo cínico travestido de mensagem religiosa.
Um outro Evangelho é possível. Um outro Deus. Uma outra espiritualidade. Fico falando comigo mesmo e rogando a Deus por misericórdia.
O dia é de entrevistar o Sr. Peter Omolo, deputy clerk, uma espécie de diretor-geral do Parlamento Nacional do Quênia. A entrevista e a visita duram cerca de uma hora e meia.
19 de janeiro, sexta-feira