O melhor taxista assembleiano do Quênia
Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 26/1/2007 as 10:54
Ainda meio atordoado de sono, saio às 15h com o pessoal de TV do Instituto Valores, em direção ao Kasarani Sports Center, local sede do Fórum Social Mundial 2007, para checar as inscrições, a programação e fazer um “reconhecimento” do local.
Pegamos um táxi com os equipamentos de TV, e um mapa da cidade.
O motorista, agora, chama-se William, queniano de uns 30 e poucos anos, de uma alegria contagiante.
Meu diagnóstico inicial sobre o trânsito me pareceu correto. Ruas estreitas, cheias de carros e “matatus” lotados, e não encontrei, após uma hora dentro do carro, sequer um semáforo ou placa indicativa de trânsito. Você pode não acreditar, mas vi três acidentes de trânsito durante o percurso de 12 km e mais ou menos 1 hora do hotel ao Kasarani Center.
O William cantava ao som de um hino evangélico em inglês que tocava no rádio do carro. “Conheço essa música. Você é evangélico?”, perguntei. “Sou, freqüento a Assembléia de Deus aqui em Nairobi. Eu e toda minha família. Sou casado e tenho 4 filhos.” E logo se apressa em explicar: “Sou cristão, tenho uma só esposa! Aqui no país essa é uma regra dos cristãos apenas.”
“E sua igreja desenvolve algum programa social?”, perguntei. “Claro que sim! Num país como o Quênia, é fundamental que a igreja se envolva com essas questões. Temos um programa de educação para crianças pobres”, ele me respondeu cheio de orgulho.
Toca outra música, agora em kishwahili, eu também conheço, e ele vai cantando, com uma voz linda, super afinado, e com aquela ginga que só os irmãos africanos têm. Nos deixa encantados no carro.
O Rafael, que estava gravando cenas da rua, dos ambulantes, do trânsito, vira a câmera ligada para dentro do carro e grava.Ao desligar a câmera, o William olha pra mim, e diz, emocionado, em meio ao caos do trânsito, àquela imagem de pobreza, de duas crianças cheirando cola numa pracinha ao fundo e de tanto desarranjo humano: “A coisa que mais me alegra nessa vida é louvar ao meu Senhor, tenho esperança de dias melhores, sei que Ele pode fazer isso!”
Meu coração, além de emocionado, se encheu de esperança em meio aquele caos urbano. Chegamos ao local do Fórum Social Mundial. A minha frente, uma faixa anuncia o slogan do FSM: “Um outro mundo é possível.” Após as palavras do taxista William, simples, cheio de fé, o slogan ganhou um sentido ainda mais forte para mim.
É por isso que vim até aqui. Por acreditar num mundo diferente, construído de outra forma.
Confirmamos algumas informações, e percebemos que a estrutura ainda não está completamente montada. O centro esportivo é enorme, com um estádio olímpico, parque aquático, etc.
Encontro Onyango Olo, em meio ao corre-corre final da montagem das barracas do FSM. Ele é o coordenador nacional desta edição do Fórum. É um queniano de 40 e poucos anos, bem articulado, que foi preso político por cinco anos e viveu exilado na Tanzânia e no Canadá por vários anos. É um ativista social, blogueiro e também faz programas de rádio.
Puxo papo e ele é extremamente solícito. “Topa fazer uma entrevista para o programa de TV do Instituto Valores?”, pergunto. “Claro que sim.”
Pergunto sobre o desafio de se fazer um evento como esse na África, a estrutura necessária, o numero de voluntários e participantes internacionais. São mais de 1.000 voluntários, e foram treinados 5.000. O numero de participantes ainda é incerto, talvez 10 mil.
“E qual o principal obstáculo?”, pergunto. “Penso que é psicológico, é fazer os africanos entenderem a dimensão de um Fórum como esse e crerem que podem fazê-lo”, ele responde.
Está anoitecendo. São 18h, encontramos mulheres, no caminho da volta, andando com bebês no colo, no acostamento da pista. São dezenas. No olhar, desalento. Será que elas sabem o que estamos discutindo aqui nesses dias? Duvido.
Tiro uma foto, de um desses olhares. “Me dá uns shilings”, diz a mulher em um inglês arrastado. William me olha, “ela está esperando uns trocados, é assim por aqui”. “Ta bom, compre leite pro seu bebê”, respondi.
Nos despedimos das mulheres e fomos embora. Ainda no caminho, os mesmos matatus abarrotados de gente que paga 40 shilings pra ser transportado, e põe a cabeça pra fora da van pra nos acenar. O táxi custa em média 500 a 1000 shillings!
Terminou o dia, chegamos ao hotel.São 20h. Tudo aqui se encerra às 18h. 22h é quase madrugada!
18 de janeiro, quinta-feira