Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 29/4/2007 as 12:45
Com o pastor Arídio, anotando suas lições
No centro de convivência, com uma das crianças atendidas
O pastor Arídio me fala sobre o centro de convivência
A convite de um velho amigo, o Libério, visitei uma comunidade cristã no Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo. Fomos juntos.
Passei parte da tarde da segunda-feira, dia 23 de abril, conhecendo o trabalho realizado na comunidade pelo pastor Arídio e por sua esposa.
O espaço físico usado para as ações divide-se em três prédios, com uma pracinha no meio. O primeiro é o salão da igreja, depois, vem um espaço com parquinho e algumas salas de aula abertas, que é um centro de convivência onde são atendidos 60 pessoas com variados tipos de doenças mentais. O terceiro espaço é um galpão onde funcionava uma escola de samba e que agora serve aos trabalhos de juventude. Eles dispõem de dois ônibus e uma ambulância, que dispõem para a comunidade.
Me chamou a atenção o fato de a igreja não ter portões e a porta principal não ter trancas. Grades nos vidros? Nem sinal! Lá dentro, no auditório para umas 300 pessoas, um projetor multimídia intacto.
“Pastor, não é perigoso deixar o prédio assim exposto? Tem coisas de valor aí dentro”, perguntei, ingenuamente.
Ele, um homem de 69 anos, 17 dos quais vivendo junto naquela comunidade, me respondeu com a maior tranqüilidade: “Menino, quem leva a mãe do bandido para o hospital? Quem visita a família do ladrão? Quem cuida dos filhos do povo dessa comunidade? Quem leva sopa para os esquecidos do bairro? Quem ora pelos que ficam doentes em suas casas? Somos nós, meu filho. Você acha que alguém vai querer roubar algo daqui?”
Diante disso, a pergunta é inevitável: por que tantas igrejas são roubadas e arrombadas nesta cidade?
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Um dos ônibus de viagem faz parte de um projeto que ele chama de “Missionários Construtores”, pelo qual aproximadamente 30 pessoas da comunidade (pedreiros, eletricistas, marceneiros etc), uma vez por ano, vão a lugares pobres, onde passam 15 dias juntos e constroem uma igreja na comunidade.
Ele me conta de uma das últimas viagens, ao Paraguai, enquanto vejo as fotos.
“Você não imagina a alegria que é pra cada um desses irmãos poder fazer uma viagem ao exterior, usar seu talento e a sua profissão a serviço de uma comunidade carente. É uma experiência única na vida de cada um”, disse, entusiasmado.
O pastor me fala de gente que teve a vida transformada nessas viagens, que tomou novos rumos, que se sentiu útil como nunca na vida e que compreendeu o Evangelho como uma forma de transformar realidades e de compartilhar “construções”, em todos os sentidos da palavra.
Faz isso com pouquíssimos recursos, sem nenhum patrocínio oficial. Recebe uma ajudinha aqui, outra lá, faz suas próprias refeições, e, como diz, “no final não falta nada”. Mas sobra esperança.
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No fim da visita, ele me mostrou o centro de convivência e todas as dificuldades que eles enfrentam para cuidar de 60 pessoas com deficiências físicas e psíquicas até síndromes raríssimas e impronunciáveis, mesmo para um médico (cegueira, autismo, paralisia cerebral etc), que são descartadas pelo sistema de saúde e não têm qualquer tipo de assistência.
O local dispõe de salas e de um parquinho infantil, onde se divertem jovens com uma média de 20 anos, se revezando no escorregador, no balanço e nas atividades lúdicas. Várias mães acompanham seus filhos. Apesar de toda a simplicidade do local e das poucas condições de atendimento, uma das mães afirma: “Venho aqui porque encontrei amor e interesse pelo meu filho.”
Olhando o ônibus adaptado usado para transportar os voluntários que entregam o sopão da madrugada, ouço atrás de mim um garoto de uns 20 anos que repetia placas de automóveis e do ônibus que havia decorado.
Ele é aficcionado por veículos. Não consegue ter uma seqüência lógica de idéias, apenas placas, números, modelos de carro. Ao me ver olhando o ônibus, me disse:
“Esse ônibus é de Deus”.
“Como assim?”, respondi perguntando.
Me olhando com certo desdém, talvez por não acreditar que eu não soubesse porque ele dizia aquilo, ele disse: “Tudo nessa vida é de Deus, ele só nos empresta pra gente usar. Quando a gente morre, não leva nada, fica tudo por aqui!” E saiu andando e repetindo os números das placas novamente.
Eu fui embora me perguntando quem é que está fora da realidade nesse mundo.
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