Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 2/4/2007 as 02:35
Criança queniana em busca de água. Na favela de Kibera as condições de higiene são precárias
São oito horas da manhã e o John passa para me buscar no hotel.
Vou com a equipe de TV do Instituto Valores.
Depois de 20 minutos andando de carro, chegamos a Kibera. Tentei descobrir se esse nome tem algum significado, mas ninguém conseguiu me dizer.
Andamos de carro por 15 minutos dentro da favela até que chegamos a um ponto de onde só se pode avançar a pé.
Por todos os lados, vejo casas de pau a pique e telhados de zinco. Os açougues expõem carnes ao ar livre, sem as menores condições de higiene. Há uma rua principal do comércio informal do lugar, onde se encontra de tudo: bacias plásticas, carnes, rádios velhos, sapatos enfileirados no chão, calendários (tem até um com a foto do Ronaldinho, que, aliás, faz o maior sucesso por aqui), pilhas, galinhas, montes de carvão usados nas casas, que ajudam a empoeirar ainda mais o ambiente. Kibera é um lugar com um mercado próprio. Vende-se de tudo por aqui.
As casas são baixas, com uns cinco metros quadrados, a maioria sem banheiro e eletricidade. Há alguns encanamentos expostos de onde os moradores pegam água, e outros até tomam banho de balde mesmo.
Impressiona a cor branca das roupas de algumas pessoas. Um branco que salta aos olhos em meio a tanta poeira.
Muita gente na rua. Gente vendendo, gente andando e gente indo para as igrejas. Mulheres com vestidos coloridos e crianças são maioria. Música e cânticos podem ser ouvidos em todos os cantos. Lembrei-me que hoje é domingo e as igrejas estão por toda a parte por aqui.
Dá para ouvir as pregações dos pequenos salõezinhos, feitas em microfones potentes. A música alegre e o sorriso das crianças contrastam com o ambiente.
Entrei numa igrejinha de madeira, que não tinha janelas, num ambiente com apenas um pouco de luz natural, com mais ou menos dez metros quadrado, duas fileiras com três bancos de madeira dispostos paralelamente e umas 15 pessoas.A frente de todos, uma mesa, onde um diácono anotava tudo o que o pastor pregava.
O pregador colocou um hino num aparelho de CD, e após todos cantarem, começou a pregar em inglês. Chama a atenção a sua convicção e oratória. Ele começa a pregar sobre o sacrifício de Abraão ao entregar Isaque, sobre como Deus nos pede sacrifícios e fico ressabiado imaginando onde ele quer chegar, se ele já foi contaminado com o “toma lá, dá cá” com Deus, assunto preferido dos pregadores da prosperidade. Aliás, fico imaginando porque os pregadores da prosperidade e apego material não vêm dar seus testemunhos de “fé”por aqui...
“O único sacrifício que Deus nos pede é um coração contrito. Nenhum homem pode crescer se não se mostrar fraco, se não for humilde de coração. Para encontrar a Deus, temos que nos humilhar, submeter nossa vontade a Ele. Se você quer ver as coisas mudarem, esse é o caminho”, diz ele.
Do outro lado da rua, uma igreja com nome em inglês, Full Gospel Church. No culto, umas 50 pessoas. O pregador fala em um dialeto africano, e o intérprete traduz para o kishwahili. Babel total!
Ao sairmos, um homem de 30 e poucos anos, camisa branca, gravata azul e uma Bíblia debaixo do braço, vem em nossa direção, e, sem entender uma palavra do que dizia, quando vi, ele nos abraçou e orou por nós, com afeição e com aquele sentimento de que “essa é a melhor coisa que posso te oferecer como gesto de boas vindas”. O homem exalava amor. Me senti profundamente acolhido e tocado em minha fé. Senti a presença de Deus naquele lugar de uma maneira tão especial... Poucas outras vezes senti isso na vida.
E tanta gente se pergunta “onde está Deus em meio àquela miséria?”. Ora, Deus pode ser visto no sorriso das crianças em meio a tanto descaso, na fé daqueles homens e mulheres sofridos, na solidariedade que existe entre tantos deles, nos cânticos e na música que estão no ar, na ação das ONG’s, nos voluntários que deixam seus países de origem para trabalhar ali, na convicção pura daquele pregador, no abraço daquele desconhecido.
21 de janeiro, domingo