Bananas e laranjas na política do Quênia
Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 2/1/2007 as 09:49
O dia é de entrevistar o Sr. Peter Omolo, deputy clerk, uma espécie de diretor geral do Parlamento Nacional do Quênia. A entrevista e a visita duram cerca de uma hora e meia. Falamos sobre política queniana, sobre a estrutura do parlamento, democracia, partidos etc.
Descubro várias curiosidades do universo político daqui. A saber:
1.Os dois principais partidos são representados pela banana e pela laranja. Ou seja: a política queniana é disputada entre os bananas e os laranjas! Fiquei imaginando essa mesma situação no Brasil e foi inevitável pensar num slogan eleitoral: “Chega de votar em bananas, agora é hora de colocarmos os laranjas no poder!” Ou o contrário...
2.Segundo Omolo, são 60 partidos, sendo os principais, o National Rinbow Coalition, e o Kenya National African Union, sendo ao todo 224 deputados e o speaker, que é o presidente da sessão. Os partidos têm forte identificação tribal também.O que está no poder se identifica com os Kikuyus, maioria étnica. O de oposição se identifica com os Luos, que é a etnia do senador democrata norte americano Barak Obama, pré-candidato à presidência dos Estados Unidos. As tribos são rivais entre si.
3.As sessões ocorrem terças, quartas e quintas-feiras, e o salário dos parlamentares é de aproximadamente 200 mil shillings mensais (cerca de US$ 3 mil).
4.Perguntei sobre a discussão do momento no Parlamento, que está em recesso e ele me respondeu que o tema são as eleições deste ano.
5.O plenário é interessantíssimo. A entrada tem uns mosaicos lindos, coloridos, com símbolos de paz e de povos de todo o Quênia. Pelo formato da porta, você jura que está entrando numa mesquita, mas, ao entrar, surpreendentemente, encontrará uma espécie de imitação do parlamento inglês, com uma mesa no centro e bancos de madeira de lei dispostos de forma retangular ao redor da mesa, que tem sobre ela uma urna de madeira onde os deputados depositam seus votos escritos à mão, um a um. Quem comanda a sessão é o speaker, que se senta em um lugar de destaque e é o único a ter microfone. No alto, há espaços para representações diplomáticas de vários países (que vão à sessão uma vez ao ano), e galerias para a imprensa e a população.As sessões são abertas.
6.O parlamento queniano foi fundado em 1907 e até 1947 nenhum negro fez parte do dele. Em 1957, eram apenas oito. Em 1963, veio a independência.
7.Omolo não quis nem aparecer nas fotos e morria de medo de falar qualquer coisa além do figurino oficial. Não me deixou tirar fotos do parlamento mas fiz um vídeo apócrifo (não sei se posso mostrar!). A conversa foi chata, mas a visita valeu a pena, afinal, deu pra entender um pouco a dinâmica política do país. O deputado estava mais para leão de chácara de baile funk do Rio que pra relações públicas.
8.O voto não é obrigatório e um terço apenas da população vota.
9.A democracia está engatinhando, mas o atual presidente é um democrata, o que é um avanço enorme, olhando para a história do país, onde ocorrem eleições livres, a oposição é forte e a imprensa também tem liberdade. Isso é unanimidade entre todas as pessoas com quem falei por aqui.
20 de janeiro, sábado