Carlos Bezerra Jr. é vereador de São Paulo. Está em seu terceiro mandato e é o líder do PSDB na Câmara. Bezerra Jr. é também médico ginecologista e obstetra, e atuou por anos em hospitais públicos da periferia da zona Leste, além de ter prestado atendimento gratuito voltado à saúde da mulher nas áreas mais pobres da capital paulista. De sua experiência na medicina e da vivência nas periferias tirou idéias que se transformaram em importantes leis. Como a que originou o Programa Mãe Paulistana, da Prefeitura, e da lei de combate ao abuso sexual infantil. Bezerra Jr. tem 40 anos, é casado e tem duas filhas. Porém, aqui, em seu blog, a idéia é esquecer um pouco de tudo isso e abrir espaço para o que estiver além das paredes da Câmara, para aquilo que não se vê nos pronunciamentos oficiais e nem mesmo no site do mandato. Opiniões, provocações filmes, músicas, vídeos, enfim...

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São Paulo, 456 anos

Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 25/1/2010 as 13:09
Hoje de manhã gastei um tempo imaginando como homenagear os 456 anos de uma cidade tão cheia de beleza, mas com tantas dificuldades. Essa megalópole de contrastes, de cinza e ouro, como escreveu Mario de Andrade, há quase 90 anos em sua brilhante “Inspiração”, chega aos 456 com avanços incríveis, mas ainda com velhos problemas.

Foi pensando nessas coisas que me lembrei de um texto, já antigo, de Rubem Alves: “Sobre política e jardinagem”. Eu sou paulistano da gema. Nasci aqui, aqui cresci, e é nessa “terra da garoa”, nessa “selva de pedra” que vivo dia a dia. Reclamo do trânsito e das filas, como todo paulistano, mas amo essa cidade de ponta a ponta; da erudição da Sala São Paulo aos chorinhos da Benedito Calixto, dos graffitis de “OsGêmeos” ao MASP, dos arranhacéus da Av. Paulista aos casarões revitalizados do centro velho. Por isso, se posso escolher algo de bom para São Paulo nesse novo ano de sua história, desejaria que a cidade fosse mais acolhedora como um “jardim” e menos hostil como a “selva”. E, para nós, os paulistanos, naturais daqui mesmo ou agregados ao turbilhão da vida cotidiana na capital paulista, que fôssemos menos “profissionais” e mais “vocacionados”, independente do cargo ou função, exercendo nossa cidadania para tornar São Paulo mais humana, mais rica de interações e trocas de experiências. Plural, sim, mas sem exclusão.

Abaixo, o texto de Rubem Alves. Parabéns, São Paulo!

Sobre política e jardinagem

De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.

‘Política’ vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.

Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oases. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia, ‘a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas’.

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.

Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.

Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.

Todas as vocações podem ser transformadas em profissões O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumente o deserto e o sofrimento.

Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: ‘Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade... Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem.’ Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.

Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.

Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?

Acabamos de celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.

Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam.

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