Carlos Bezerra Jr. é vereador de São Paulo. Está em seu terceiro mandato e é o líder do PSDB na Câmara. Bezerra Jr. é também médico ginecologista e obstetra, e atuou por anos em hospitais públicos da periferia da zona Leste, além de ter prestado atendimento gratuito voltado à saúde da mulher nas áreas mais pobres da capital paulista. De sua experiência na medicina e da vivência nas periferias tirou idéias que se transformaram em importantes leis. Como a que originou o Programa Mãe Paulistana, da Prefeitura, e da lei de combate ao abuso sexual infantil. Bezerra Jr. tem 40 anos, é casado e tem duas filhas. Porém, aqui, em seu blog, a idéia é esquecer um pouco de tudo isso e abrir espaço para o que estiver além das paredes da Câmara, para aquilo que não se vê nos pronunciamentos oficiais e nem mesmo no site do mandato. Opiniões, provocações filmes, músicas, vídeos, enfim...
Enviador por Carlos Bezerra Jr. em 25/11/2009 as 11:30
Depois de algum tempo sem ir ao cinema, consegui parar um pouco no feriado e aproveitei para assistir ao “O Solista”.
O filme conta a história real de Steve Lopez (Robert Downey Jr.), um jornalista do L.A. Times que, andando pela rua, é atraído por uma canção de Beethoven; quem está tocando é Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), um morador de rua e ex-aluno da Juilliard, uma das mais conceituadas faculdades de música do mundo. A pressão da escola, os problemas familiares e os surtos psicóticos cada vez mais frequentes o levaram a abandonar a academia, e a viver perambulando pelas ruas de Los Angeles, sofrendo com a esquizofrenia, e tocando um violino com duas cordas apenas.
Steve Lopez começa a escrever sobre Ayers em suas colunas no jornal, e a partir daí, surge o desejo de reabilitá-lo.
O tema central do filme é o encontro dos dois, e as mudanças que esse relacionamento de amizade vai provocando na vida de ambos.
No caminho dessa aproximação entre eles, o longa retrata a realidade dos sem-teto de Los Angeles (falam em 90.000 pessoas em situação de rua), mostrando cenas de abrigos, degradação urbana, abandono e uso de drogas pouco vistas no cinema.
Só um parêntese rápido, um pouco além do assunto principal do filme: chamou minha atenção o fato de que, em frente ao abrigo chamado Lamp, em meio a uma área extremamente degradada da cidade, com centenas de moradores de rua, há uma igreja enorme, que sempre aparece com as portas fechadas; o templo traz um luminoso em neon com os dizeres “o salário do pecado é a morte”. A igreja parece um corpo estranho em meio ao caos. O espaço que deveria ser de inclusão e de graça, é de exclusão, separação e acusação. Olhos fechados aos que mais precisam de um toque da graça. Triste constatação da postura de grande parte de nossas igrejas. O religioso do longa, um homem a quem Lopez contrata para dar aulas de cello a Nathaniel, usa jargões de fé, frases de efeito e aconselha Nathaniel a orar quando este sente medo de fazer uma apresentação musical pública. Porém, acaba por ser é distante e impessoal com aquele homem em situação de rua, e tem um ar de superioridade espiritual visível, e, aliás bastante comum. Incapaz de um gesto de amor e de aceitação.
Mas, voltando ao tema central, o filme fala do poder dos relacionamentos, da amizade, e, para mim, de como Deus se manifesta, e manifesta Sua graça por meio desses encontros.
Fala das coisas “loucas” confundindo as “sábias”. O aprendizado é mútuo - as mudanças, idem.
Steve é auto-suficiente, distante, impaciente, que pensa poder “consertar”o mundo, e que as coisas tem que ser como acha que devem ser. Nathaniel, em determinado momento, fala: “ele é meu Deus”, ironizando o fato de que ele quer mudá-lo de todo jeito. Seu desejo de mudar o outro é movido por compaixão, mas, para tanto, ele impõe regras e condições o tempo todo.
Até que ele se enxerga de fato. E se vê tão “quebrado” internamente quanto o outro, mas querendo brincar de Deus e consertá-lo, sem nem mesmo olhar para si mesmo e seus relacionamentos. Quando percebe sua condição, passa a aceitar o outro como ele é, com seus tempos e suas contradições, e sem esperar nada em troca. Nathaniel, por sua vez, tem seu próprio tempo de reencontro consigo mesmo – isso fica com pequenas mudanças que deixa transparecer, como, por exemplo, ao aceitar morar num apartamento depois de anos nas ruas, tomar aulas de cello etc. Mas ele não abandona o carrinho de supermercado com suas bugigangas acumuladas ao longo do tempo, e o carrega para todos os lugares, como que se deixasse claro não abrir mão de sua identidade.
O fator fundamental para sua mudança é o amor desinteressado de Lopez, que o vai tocando. Steve Lopez é tocado pela beleza da música, e pela genialidade de Nathaniel em meio ao caos das ruas de LA, e de sua doença mental. “Tem algo a mais lá fora”, diz ele a sua ex-mulher, intrigado com o que via. Ao que ela responde: “claro que existe, é a Graça, Steve!”.
E é essa Graça, esse amor incondicional de Steve por Nathaniel que faz com que ele se reaproxime de sua ex-mulher, que repense seus valores, que se torne paciente e que dá a ele um novo olhar para a vida, com muito mais humanidade.
Essa mesma Graça faz com que Nathaniel se reconecte com sua família, com sua música, consigo mesmo. Ele não se cura, mas pelo toque da Graça se permite amar e ser amado, e se torna uma pessoa melhor .
Graça faz isso, nos traz de volta à vida, e nos torna canais de vida onde a morte e o caos se instalaram. Saí do cinema emocionado. Pensei muito nas pessoas que estão perto de mim, e nas que estão nas ruas também… E pedi a Deus que me faça um canal da Sua Graça para aqueles a quem encontro todos os dias, sejam eles meus amigos, sejam eles homens ou mulheres em situação de rua.
Jesus quer salvar os cristãos
O livro de Rob Bell é uma provocação com endereço certo: a “igreja” preocupada apenas com si própria, com seu crescimento, com mais poder e mais dinheiro. Essa igreja alheia e insensível à realidade que a cerca é confrontada no texto de fácil leitura de Bell. O autor expõe o paradoxo entre a denominação que ergueu um prédio de U$ 20 milhões e o contexto de sua região, onde 1 em cada 5 pessoas vive abaixo da linha de pobreza. O livro traz críticas duras a grupos cristãos dos Estados Unidos e fala da urgência do retorno ao Evangelho e seu compromisso com justiça social. Ainda bem que aqui no Brasil nossas igrejas são “bem diferentes”, né? Ed. Vida – 208 pg.
Os Homens que não amavam as mulheres
do jornalista sueco Stieg Larsson. Boa indicação do Denis Mizne, coordenador do Instituto Sou da Paz, a partir da campanha despretensiosa que promovi no Twitter® (#troqueoBBBporumlivro). Mania na Europa e nos EUA, o livro faz parte da Trilogia Milleniun (mas pode ser comprado separado) e traz uma trama misteriosa que envolve grandes corporações financeiras, denúncias, jornalismo investigativo, desaparecimento de pessoas e muito suspense, que, particularmente, está me deixando magnetizado. Larsson (1954-2004) foi fundador e editor-chefe da revista sueca Expo, que denuncia grupos neofascistas e racistas. Era especialista na identificação da atuação das organizações de extrema direita em seu país. Ed. Cia. Das Letras – 528 pg.
Up/Down
Bíblias em Braille nas bibliotecas de SP
Plano Nacional de Banda Larga
Vi outro dia
Alice no País das Maravilhas
Fui assistir com minhas duas filhas ao novo filme de Tim Burton,baseado no clássico de Lewis Carroll. Nele, a história se passa nove anos depois da original: a protagonista (Mia Easkowska) já tem 19 anos quando segue o coelho branco e visita novamente o estranho lugar onde já estivera no passado, mas do qual não se lembrava mais. No longa, o encontro dos dois universos, o de Burton e o de Carroll, oferece uma mistura fantástica.A Wonderland do diretor estadunidense é sombria e tem alguns seres aparentemente seres bizarros, mas que, pouco a pouco, se humanizam.
Preciosa
O longa conta a história de Claireece “Precious” Jones, uma garota norte-americana, negra, de dezesseis anos. A vida de Claireece é uma seqüência de desventuras. Da violência sexual que sofreu, praticada por seu pai, aos abusos cometidos por sua mãe, a protagonista cresce em uma vida desprovida de amor. Preciosa tem um filho, portador de Síndrome de Down, e, quando engravida pela segunda vez, é enviada a uma escola alternativa. É a partir desse novo lugar que consegue reelaborar e resignificar um tanto de traumas e sua própria vida. Para mim, o filme lança um olhar especial sobre os excluídos, sobre aqueles que não conseguem competir numa sociedade tão implacável a ponto de violentar suas crianças. O longa dirigido por Lee Daniels é extremamente sensível e tocante - diz muito sobre persistência e determinação.